Quantos pertubados já tentaram me conheçer:

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O dia em que a música parou de tocar.


Ao fundo, Casa do sol.

Era fim de tarde, e da janela quadrangular no meio da parede, entrava a única passagem de luz para o quarto, que agora não continha mais nenhuma mobília. Sentado no canto do chão que  era iluminado pela janela, A luz que lá ficava, era cortada pelas divisões da madeira que criavam quadradinhos sob o chão e faziam do espaço ‘vaziamente’ iluminado,  um encontro de luz e espaço para fotógrafos.

A posição do moço era de braços entre as pernas e contemplativo do espaço vazio. Ali já havia morado; histórias e fábulas já foram contadas ao redor de muitos daqueles espaços e cômodos e lembranças que eram mais sólidas que os  tijolos ali levantados...

O Amor  olhava para ele do outro canto do quarto, e lhe dirigia um olhar de inquietação, não estava acostumado a ver o moço daquele jeito.  Era algo diferente do que estava acostumado a ver, seus músculos reagiam predominantemente no automático, suas ações eram guiadas pelo bicho chamado rotina e seu sorriso,  o usava com muita maestria: Parecia mais ter adotado um papel público, o de ‘’declaradamente sanado com o mundo’’;  Papel esse que sabia fazer com muita habilidade. Fora do público já dentro de sua mansão, o sorriso não era o mesmo. E ele sabia claramente o motivo disso...

-Eu quero saber Moço até quando você vai ficar ai...

-Não sei te responder Amor.

-Pois é! Não acha que está na hora de se acostumar com a ideia logo e deixar de lado essa mansão não?

-Deixar?

-Sim, já fazem 3 semanas que os móveis foram recolhidos de vez e você ainda insiste em vir aqui Rapaz!

Ao fundo, Times like these

-Essa ideia de que terei que deixar de lado a minha maior obra ainda não me faz completo sentido.

-Mas você não deixará. Enquanto eu estiver aqui, um pouco de vocês sempre estará aqui!

-Vocês? Que vocês? Na casa de três, hoje só moram dois. Onde está o ‘vocês' agora Amoreco ?

-Rapaz, é uma casa linda a mais bela das quais vivi e pretendo continuar vivendo, mas agora não há mais motivos para você viver apenas comigo aqui. Os tempos são outros e...

-Os tempos são outros por quê agora Ela simplesmente preferiu sair daqui de vez ? Será que é tão simples assim mesmo Môzinho?

-E com esse tom sarcástico você pretende chegar aonde? Acha que me destratando, ou me ignorando que nem você está fazendo com Ela vai conseguir o que quer? Sua paz de espírito?

-Como você sabe que estou ignorando-a? Enfim, Desculpe, não era essa a intenção. É que é realmente ainda não faz sentido pra mim...

-Moço deixe eu lhe dizer uma coisa: Você é um dos maiores arquitetos que já vi por toda minha peregrinação ao longo desses caminhos por ai... Essa foi sim inegavelmente a casa mais bela e sólida que você já fez até agora. ATÉ AGORA! Seu talento e seu coração são capazes de fazer algo absurdamente maior que isso! Lembre-se de seus pais e na casa deles... Todos somos capazes de fazer grandes construções, quem dirá você que vive disso. Das suas construções...

-Eu sei amor; mas e você? Pra onde vai?

-Ficarei aqui.

-Por que?

Nesse momento, ele parou, deu um longo suspiro e lhe sorriu de canto de boca, parecia até que já sabia que essa pergunta iria ser feita. Como se de alguma forma o Moço precisasse de uma confirmação daquilo que já era verdade...

-Porque sou único. E fui feito por vocês para ficar aqui. Enquanto eu existir essa casa existirá. quer vocês voltem a morar aqui ou não. Quer até queiram fingir que eu não existo junto com essa casa. E outros de mim irão surgir para habitar cada moradia que vocês forem, mas o amor que vive aqui, pode ter certeza: É único.

-E esses outros que conhecerei, serão como você ?

-Claro que não. Cada exemplo de nós será diferente por quê serão moradas diferentes...

-E serão melhor do que você ?

-Talvez não...Talvez sim...Quando me conheceu você sabia que eu era essas coisas todas dentro dessa casa ?

Ao fundo, Versos simples
-Entendi... E uma coisa amor: Que eu faço com aquele inquilino que entrou aqui na casa ?

-Ah rapaz! Ele é um fantasma você nunca ouviu falar não? Ele é um pouco de mim sem uma forma concreta. Vai ficar lhe incomodando toda vez que você não souber o que fazer  aqui dentro; E lá fora, vai ser um alarme para lhe lembrar que distancia que você cria de nós, Eu e ela. O nome dele é saudade.

-Se eu ficar aqui dentro ele me segue, se ficar lá fora ele me chama. Ele é grudento assim mesmo ?

-Sim e esteve com você mais tempo do que você imagina... Entenda uma coisa Moço, me evitar ou evitar ela não vai lhe levar a lugar algum. Pois você estará trocando sua presença por esse fantasma. É isso mesmo que você quer ?

-Não.

-Então comece a repensar sobre isso.

-Hum...Só me diz uma última coisa: E os meus sonhos que faço com eles ?

-Deixe-os aqui. Faça como ela fez. Porquê de nada vai te adiantar levar esses sonhos para outras casas.Novos sonhos deverão nascer junto com as outras moradias. Deixe-os aqui. A casa é grande e tem espaço para todos eles.

-E você vai fazer o que com eles ?

-Pare de se preocupar com esses sonhos Rapaz. Deixe-os aqui, eu vou saber o que fazer com eles.

Ao fundo, Relicário

Desfazendo-se de todos eles,  o moço pouco a pouco os guardou com carinho em algo que poderia caber uma lua, um girassol, ou até mesmo um colar de arroz. O sol já quase saia da casa e da janela não mais entrava aquela luz que criava os tijolinhos no quarto. Era hora de partir, e o moço sabia disso. Quem sabe voltasse, quem sabe não. Tinha deixado agora seus sonhos naquela casa o que tivesse que fazer agora fora dali, teria que ser feito sem eles. Olhando de relance os movimentos do Moço,  o amor sabia o que fazia, embora o moço ainda não compreendesse.

-É amor, talvez tenha faltado um pouco mais de eu e você por aqui...

Ao fundo, Porque nós