Ao fundo, Casa do sol.
Era fim de tarde, e da janela quadrangular no meio da parede, entrava a única passagem de luz para o quarto, que agora não continha mais nenhuma mobília. Sentado no canto do chão que era iluminado pela janela, A luz que lá ficava, era cortada pelas divisões da madeira que criavam quadradinhos sob o chão e faziam do espaço ‘vaziamente’ iluminado, um encontro de luz e espaço para fotógrafos.
A posição do moço era de braços entre as pernas e contemplativo
do espaço vazio. Ali já havia morado; histórias e fábulas já foram contadas ao
redor de muitos daqueles espaços e cômodos e lembranças que eram mais sólidas
que os tijolos ali levantados...
O Amor olhava para
ele do outro canto do quarto, e lhe dirigia um olhar de inquietação, não estava
acostumado a ver o moço daquele jeito.
Era algo diferente do que estava acostumado a ver, seus músculos reagiam
predominantemente no automático, suas ações eram guiadas pelo bicho chamado
rotina e seu sorriso, o usava com muita
maestria: Parecia mais ter adotado um papel público, o de ‘’declaradamente
sanado com o mundo’’; Papel esse que
sabia fazer com muita habilidade. Fora do público já dentro de sua mansão, o
sorriso não era o mesmo. E ele sabia claramente o motivo disso...
-Eu quero saber Moço até quando você vai ficar ai...
-Não sei te responder Amor.
-Pois é! Não acha que está na hora de se acostumar com a ideia logo e deixar de
lado essa mansão não?
-Deixar?
-Sim, já fazem 3 semanas que os móveis foram recolhidos
de vez e você ainda insiste em vir aqui Rapaz!
Ao fundo, Times like these
-Essa ideia de que terei que deixar de lado a minha maior
obra ainda não me faz completo sentido.
-Mas você não deixará. Enquanto eu estiver aqui, um pouco
de vocês sempre estará aqui!
-Vocês? Que vocês? Na casa de três, hoje só moram dois. Onde
está o ‘vocês' agora Amoreco ?
-Rapaz, é uma casa linda a mais bela das quais vivi e
pretendo continuar vivendo, mas agora não há mais motivos para você viver
apenas comigo aqui. Os tempos são outros e...
-Os tempos são outros por quê agora Ela simplesmente
preferiu sair daqui de vez ? Será que é tão simples assim mesmo Môzinho?
-E com esse tom sarcástico você pretende chegar aonde?
Acha que me destratando, ou me ignorando que nem você está fazendo com Ela vai
conseguir o que quer? Sua paz de espírito?
-Como você sabe que estou ignorando-a? Enfim, Desculpe,
não era essa a intenção. É que é realmente ainda não faz sentido pra mim...
-Moço deixe eu lhe dizer uma coisa: Você é um dos maiores
arquitetos que já vi por toda minha peregrinação ao longo desses caminhos por
ai... Essa foi sim inegavelmente a casa mais bela e sólida que você já fez até
agora. ATÉ AGORA! Seu talento e seu coração são capazes de fazer algo
absurdamente maior que isso! Lembre-se de seus pais e na casa deles... Todos
somos capazes de fazer grandes construções, quem dirá você que vive disso. Das
suas construções...
-Eu sei amor; mas e você? Pra onde vai?
-Ficarei aqui.
-Por que?
Nesse momento, ele parou, deu um longo suspiro e lhe sorriu de canto de boca, parecia até que já sabia que essa pergunta iria ser feita. Como se de alguma forma o Moço precisasse de uma confirmação daquilo que já era verdade...
Nesse momento, ele parou, deu um longo suspiro e lhe sorriu de canto de boca, parecia até que já sabia que essa pergunta iria ser feita. Como se de alguma forma o Moço precisasse de uma confirmação daquilo que já era verdade...
-Porque sou único. E fui feito por vocês para ficar aqui. Enquanto eu existir
essa casa existirá. quer vocês voltem a morar aqui ou não. Quer até queiram
fingir que eu não existo junto com essa casa. E outros de mim irão surgir para
habitar cada moradia que vocês forem, mas o amor que vive aqui, pode ter
certeza: É único.
-E esses outros que conhecerei, serão como você ?
-Claro que não. Cada exemplo de nós será diferente por
quê serão moradas diferentes...
-E serão melhor do que você ?
-Talvez não...Talvez sim...Quando me conheceu você sabia
que eu era essas coisas todas dentro dessa casa ?
Ao fundo, Versos simples
-Entendi... E uma coisa amor: Que eu faço com aquele
inquilino que entrou aqui na casa ?
-Ah rapaz! Ele é um fantasma você nunca ouviu falar não?
Ele é um pouco de mim sem uma forma concreta. Vai ficar lhe incomodando toda
vez que você não souber o que fazer aqui
dentro; E lá fora, vai ser um alarme para lhe lembrar que distancia que você
cria de nós, Eu e ela. O nome dele é saudade.
-Se eu ficar aqui dentro ele me segue, se ficar lá fora
ele me chama. Ele é grudento assim mesmo ?
-Sim e esteve com você mais tempo do que você imagina...
Entenda uma coisa Moço, me evitar ou evitar ela não vai lhe levar a lugar
algum. Pois você estará trocando sua presença por esse fantasma. É isso mesmo
que você quer ?
-Não.
-Então comece a repensar sobre isso.
-Hum...Só me diz uma última coisa: E os meus sonhos
que faço com eles ?
-Deixe-os aqui. Faça como ela fez. Porquê de nada vai te
adiantar levar esses sonhos para outras casas.Novos sonhos deverão nascer junto
com as outras moradias. Deixe-os aqui. A casa é grande e tem espaço para todos
eles.
-E você vai fazer o que com eles ?
-Pare de se preocupar com esses sonhos Rapaz. Deixe-os
aqui, eu vou saber o que fazer com eles.
Ao fundo, Relicário
Desfazendo-se de todos eles, o moço pouco a pouco os guardou com carinho em
algo que poderia caber uma lua, um girassol, ou até mesmo um colar de arroz. O
sol já quase saia da casa e da janela não mais entrava aquela luz que criava os
tijolinhos no quarto. Era hora de partir, e o moço sabia disso. Quem sabe
voltasse, quem sabe não. Tinha deixado agora seus sonhos naquela casa o que
tivesse que fazer agora fora dali, teria que ser feito sem eles. Olhando de
relance os movimentos do Moço, o amor
sabia o que fazia, embora o moço ainda não compreendesse.
-É amor, talvez tenha faltado um pouco mais de eu e você
por aqui...
Ao fundo, Porque nós