E era assim tradicionalmente, depois de desperto e a caminho de seus afazeres rotineiros, seguia sempre o seu caminho admirando a beleza da natureza. E que beleza! Sabia as descrever como ninguém! E as fitava com aqueles olhares lentos, de fotógrafo que transformam qualquer situação a qualquer momento com um simples olhar.
Mas olhar não lhe era necessário, como menino buliçoso tinha uma mania de levar-lhes as flores e folhas por onde passava. Eram tão belas que não poderiam ficar apenas limitadas aos seus olhos. As carregava e quando não a saia depenando canto por canto, traço por traço, pétala por pétala, dava para as moças de aparencia meiga e sensível que tanto passavam no seu caminho. Sempre na melhor das intenções, o seu sorriso era apenas o que lhe desejava, quando jogado ao canto as plantas não viravam restos no chão.
Porém, com o passar do tempo, não mais olhou com prazer para a atividade quase nula que tinha, Sentiu um ser vivo ali lhe olhando, lhe sentindo, era como se agora estivesse machucando uma pessoa.
Observou naquele momento a flor. Um lírio azulado:
Ao nosso olhar desprecupado, não passa de belíssimo exemplar de nossa flora ambiente, mas se observarmos a fundo, iremos notar que encerra em si um mundo à parte.
Seu caule, protegido pelas folhagens, busca as raízes para receber o alimento, e as raízes por sua vez, trabalham anônimas no sulco do solo, colhendo elementos e transformando-os em nutrientes, sem esquecer o processo da fotossínte que assume papel fundamental na nutrição vegetal. Com todo este trabalho, esta planta garante proteção ao solo.
Suas folhas que secam retornam ao campo decompondo-se e servindo de repasto às criaturas dos reinos subterrâneos. E na sutileza de seu cálice, borboletas, abelhas e pássaros gozam da fragrância bendita do pólen.
E daquele dia em diante, conseguiu enxergar mais longe, deixou de ver com olhos de ver e passou a olhar com os olhos de sentir. Por onde passava agora,as acariciava.