Quantos pertubados já tentaram me conheçer:

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Museu três metros acima do céu.



Museu: Uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade.

O que será que pensa Da Vinci ao ver a Monalisa em um museu ? Será a sua intenção ? ver a sua maior obra, fadada a um museu, aos olhos e julgamentos dos outros ? Dignos de admiração claro... Mas teria sido isso o que se ele esperava que fosse acontecer com A Gioconda  ?

Julho já se passava, e junto com ele havia trazido um inverno parcialmente rigoroso, e uma febril sede de mudança, transformação, e desapropriação de velhas rotinas.  Inevitavelmente, aquela que era mansão, dos quintais floridos, corredores de engraçadas fotos, e salas abarrotadas de bons amigos contadores de histórias; tinha se tornado algo muito diferente do imaginado. Até o vento pairando sobre o espaço era algo diferente, embaraçoso, travado como clima de sala de pediatra : Cheiroso, calmo e repleto de crianças acanhadas com a sua atual situação.

Assim que os dois haviam saído de lá passaram ainda, um breve tempo a vagarem entre idas e vindas naquela que lhes era a linda moradia. Não tardou, mas essas idas e vindas lhes custaram mais do que podiam proporcionar, e logo foram suspensas por ordem maior. A maneira como conviviam ali não estava fazendo bem a ninguém. Seria destrato a mansão ficar daquela maneira, ainda mais com aquele que mais que os dois era por direito morador dali : O amor. Mas dele falaremos um pouco depois...

A vida do moço tinha se tornado uma verdadeira jornada em busca do rumo dos seus talentos.
Dos seus olhos de energia, minavam agora uma chama em busca do que sonhava , e já se sentia palpando um pouco de cada coisa brevemente em suas mãos, como se a imaginação, fosse o primeiro campo fértil das realizações. Do seu pós migração, fala-se que ele tornou-se uma pessoa mais fechada não menos extrovertida, apenas mais reflexiva. Talvez aqueles tantos peixes e aquários de alguma forma tenham lhe ensinado a não morrer pela boca. Em seu novo espaço, preferia ficar calado e omitir opiniões a respeito, para não ficar de malfazejo fazendo comparações com a mansão.

A moça, se sabia que tomou um rumo distante daquela mansão. Sacudiu as lembranças num relicário e como sino de paz guardou-o em sua carteira a sete chaves. Instantes após isso, pouco se ficou sabendo sobre ela. Sair daquela situação lhe foi até um pouco mais complicada, pelo imenso sentimento de culpa e leve remorso que lhe auto impunha sobre os ombros. Mas nada que boas companhias a pudessem reabilitar. Ordeira e dedicada seguiu sua rotina a risca como sempre fazia no trato além mansão. Sabe-se por fim, que agora ela habitava em uma linda casa iluminada pelo sol poente, no cume de uma montanha, ao qual distante ela todo dia antes de colocar sua cabeça no travesseiro, fitava da janela a mansão.

E o que dizer daquele que depois do furacão, depois da implosão, depois do alvoroço, depois do choro,  depois do silêncio e depois até do tempo permaneceu ali ?
Que dizer do amor ?
            Sem dúvidas ele foi o que mais sofreu com tudo aquilo, sua relação com aqueles dois era de extrema dependência,  a mansão podia até envelhecer, mas pouco importava, lá estaria o Amor firme e forte os esperando de braços abertos como sempre. E por um bom tempo ele lá ainda permaneceu, de braços abertos, olhando de soslaio pelo enorme vitral da sala, para aquela bela estradinha que fazia rota direta para a mansão. Em vão. Já era tarde demais para ver naquela estação e nas muitas outras que viriam os dois vindo de mão dadas. Dias e dias olhando aquele vitral sem nenhum sinal que o alimentasse de esperanças, a não ser o de sua intuição.

Vendo o humilde enorme estofado encher de poeira, as primeiras teias surgindo por entre as fotos, os primeiros piscos do lustre que fugaz estava começando agora a piscar, E sem nenhum sinal da volta dos dois, ele se viu numa única decisão para não dar fim a mansão:
            
            Fazer dela um museu. Não qualquer museu, mas um verdadeiro espaço de convívio humano que pudesse manter de alguma forma viva as lembranças daqueles tempos áureos. E firme em sua decisão, bloqueou apenas alguns espaços que cabiam apenas de circulação dele, e tornou público, para que o mundo pudesse ver, que de alguma forma ali habitava o sentimento mais belo que o homem pode conhecer. Fez da mansão o museu e dela tornou-se guia. Os dois distantes dela, nada faziam, apenas olhavam tudo aquilo se tornando o museu.
            Multidões frequentavam espantadas aquele espaço; em busca de respostas sobre como que uma mansão perfeita daquela fizera dois dos moradores simplesmente partirem sem muitas explicações.

Como se sair de uma casa pedisse explicações para alguém mais além dos moradores.

Do alto da montanha e dos murmúrios do império, os dois nada podiam fazer. Não agora.

E como história desenvolvida em prosa de gramática, aquela não era digna de “ ponto” propriamente dito, e sim de “reticências” daquelas bem robustas que chamam mais atenção do que o texto inteiro. 3 pontos muito bem dados.
3 metros acima do céu.


P.S: O que são três metros acima do céu para quem já conheceu as galáxias ?

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